quinta-feira, 1 de março de 2007

Delíquio

- Quanto são as flores?
- R$ 49,00.
Como sempre, senhor.
- Por que não me chama pelo nome? Você já me conhece há bastante tempo.
- Desculpe Paulo, é costume. E como vocês estão?
- Eu sinto que ela vai voltar pra mim...

E esboçou um sorriso triste. Seus lábios fizeram grande esforço ao abrir em forma de arco. Segurou as rosas com firmeza, como se aquele fosse o dia em que tudo iria se resolver.

A moça vendedora o assistiu sair pela porta, com os mesmos passos cansados de um ano atrás, quando ela o viu entrar pela primeira vez na loja. Pálido. Cansado.

Desde aquele dia era assim.

Toda sexta-feira Paulo aparecia, comprava doze rosas vermelhas e saía. Sempre com um resquício de esperança nos olhos marejados. E aquilo que antes era apenas curioso para a moça, começou a ferir seu coração. Mesmo os cortes eventuais dos espinhos das flores não doíam daquele jeito.

Era a frase. A frase que já saía da boca de Paulo de maneira automática: "Eu sinto que ela vai voltar pra mim...". Aquilo a fazia morrer de pena do pobre coitado. Queria levá-lo para casa e cuidar de sua fome de amor. Como quando se pega um cachorro vira-lata na rua.

O fato é que a moça sabia seu nome, o via toda semana por pouco mais de um ano. Mas ainda sim se perguntava: “Quem é aquele homem? E que mulher é tão merecedora daquelas flores?”

Sabia que não era para ninguém morto, pois já espreitara no cemitério, mudando o curso do caminho para casa, após o expediente a procura das rosas. Nunca as encontrou. Como também não encontrou aliança no dedo, nem ao menos uma foto carregada no bolso.

Certa vez quis perguntar, pensou que já tivesse intimidade o bastante.

- Quem é essa mulher que vale à pena tanto esforço? – perguntou com um pouco de receio.

E a moça recebeu os R$ 49,00 das flores, silêncio e nada mais.

Não voltou a perguntar após aquele dia. Percebeu que Paulo ficava mais feliz ao ser deixado em paz, e respeitava. Afinal, era um ótimo cliente acima de tudo.

Para a moça vendedora aquele era Paulo. Alguém que entrava e saía calado. Transbordando esperança. Sempre com uma gota de força sobrando.

Simplesmente o homem que comprava rosas de sexta à noite.

Mal sabia ela que, não muito longe dali, estava Paulo. Com calma, ele coloca as flores em um vaso transparente em cima de uma pequena mesinha. No fundo do vaso, um anel dourado brilha na água. Paulo senta-se na beirada da cama e começa a falar com voz baixinha:

- Eu ainda amo você, e você sabe... Por que você não volta pra mim? Por que tudo isso está acontecendo? - por baixo dos lençóis está a silhueta de uma mulher que dorme. Paulo completa:

- Eu estou aqui, esperando você. – disse no pé do ouvido. - Amanhã você vai acordar, nós vamos conversar e tudo vai estar bem. – sorriu - Eu tenho tanta coisa pra falar. - e suspirou.

Foi quando alguém bateu na porta e entrou. Paulo já sabia de trás para frente o que ia escutar.

- Acabou o horário de visita senhor Paulo. – disse a enfermeira.

Paulo levantou-se e foi embora. Com os mesmos passos cansados. Mas, a esperança ainda ali, escorrendo em gotas.

E, na sexta seguinte, a moça da loja de flores vendeu mais doze rosas para Paulo. Ele entrou como sempre, mesmos passos e a mesma esperança. Repetiu a mesma frase calejada e saiu.

Depois daquele dia Paulo nunca mais apareceu...


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Obrigado a Super Ana Enes, por me ajudar a corrigir os erros gramaticais e ainda dizer que o texto está bom, só pra me animar. =)

Obrigado Super!



6 comentários:

bcnbru disse...

Fale com ela.

Meire disse...

Oie...pensou q ia "esconder na meia" esse blog...com esses super textos...meu, que lindo! Quase chorei...perfeito! bjus

Cesar disse...

:'( mais 15 dessas e eu compro seu livro!!

xD abraco manin!

Renata disse...

Deixa eu ver se eu entendi...
ela acordou?

xD


HUAIHUIAHIHUEIHUAHUHE



lindo o texto!

te amo!

alexandre disse...

nossa essa foi triste... vou entrar em depressão desse jeito...

d onde vc tira inspiração pra escrever essas coisas???


falow
abraço

Renato disse...

Caramba Du, sensacional. Muito bonito.

Meu parabéns manin!